O VIDEIRINHO

domingo, setembro 25, 2011

INTERIORES

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A dama deixou-as ao sair. 

Reparei nelas pouco depois de sair, quando o bater da porta cortou o cordão umbilical que nos unia. 

Era um saco de uma famosa marca de lingerie deixada sobre o tapete traseiro do meu táxi. 

Peguei no saco como quem levanta o cadáver de um pássaro com dois dedos e, no seu interior, descobri umas calcinhas mínimas, pretas, de corte brasileiro e finas rendas, excepto na sua “Zona Zero” (de seda tão suave quanto um “cu de menino”). 

Ainda conservava a sua etiqueta ao dependuro e o ticket da compra: 33 euros. 

A passageira deve tê-las comprado para uma ocasião especial, ou para sentir-se especial em qualquer ocasião. 

Só ela. 

O seu segredo sexy. 

Conduzindo o meu táxi com as calcinhas na mão, acariciando o seu complexo tacto, invadiu-me uma estranha tristeza. 


Aquela ‘vestimenta’ jamais cumpriria a sua função. 

Não terá pele que recheie as suas costuras, nem ‘racha’ a esconder ainda que se intua. 

E esse elástico nunca alcançará a sua máxima tensão sexual, nem será rasgado pelos dedos da urgência, nem cruzará a borda das calças, despistado, procurando oxigénio ou talvez olhares: os olhos perplexos do adolescente, ou os olhos cativos do casado. 

E o seu olor. 

Nunca exalarão a nada. 

Nem para a frente e para trás. 

Mudas e quedas. 

Afastei-me da cidade e no campo acendi uma fogueira com ramos secos. 

Depois beijei e lancei as calcinhas para o fogo. 

Começaram a arder desprendendo um fumo tóxico que inalei de perto. 

Assim cheira a morte em vida, pensei. 


Aturdido e agoniado pela fumaça tóxica das calcinhas, comecei a masturbar-me pensando numa ‘greta’ que inventei. 

Uma 'greta' com penas de pato, ferrolho e código de barras. 

Dessa 'greta' saíam formigas transportando sementes de sésamo. 

Ejaculei-me quase no mesmo instante, no tronco de uma árvore. 

Não sei quantas horas depois, já dia, despertou-me uma guarda florestal. 

Levantou-me dois autos de notícia por ter estacionado num parque protegido e por acender uma fogueira numa zona de risco de incêndios. 

Peguei nos papeis das multas sem tugir nem mugir. 

Pagá-las-ei. 

Nota: 
A guarda florestal tinha um corpo escultural e uns olhos divinais.
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