O VIDEIRINHO

sábado, junho 15, 2013

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A CONDESSA DESCALÇA


Recordo o primeira vez que me apaixonei; tinha onze anos e ela trinta e cinco, eu moreno, ela morena, eu em Castelo Branco, ela em Hollywood. 

Como a cada domingo depois de regressar de casa de Baptista Mendes, amigo dos meus pais e meu padrinho, o único com televisão, onde podia viajar visualmente (só aos domingos). 

Melhor e maior mesmo, só no Cine Teatro Avenida (Castelo Branco). 

Não sei como… mas entrei e vi “A Condessa Descalça”, suponho ter sido um sábado. 

A protagonista, a “ bela bailarina espanhola, Maria Vargas, (Ava Gardner); uma esbelta actriz de lábios apetitosos, lábios que nos meus sonhos sabiam a neve, framboesas, nostalgia e mel; pernas esculturais para suporte de tão desejosa e esbelta escultura; tinha um magnetismo felino. 


Nessa noite o sono abandonou-me e no dia seguinte fê-lo o apetite, qualquer recanto tornava-se um bom lugar onde repousar a vista, o meu coraçãozito autista assim mandava. 

Creio que foi na noite seguinte quando a minha mãe, alertada pelo meu comportamento, se sentou na beira da minha cama para se inteirar do meu estado. 

Eu descrevia os sintomas com a mesma inocência que o fazia ao médico de família, “sinto aqui… como que um…” 

Foi até que num repentino movimento de mãos, me despenteou e que o seu gesto sério se transformou num sorriso. 

Zé, tonto, o que se passa contigo… é que estás apaixonado. 

Era tal o meu estado de enfermo, que unicamente reconhecia e aceitava a imensidade oceânica como barreira insuperável na nossa história de amor. 

Durante semanas o meu peito converteu-se numa lúgubre adega vazia e húmida, podia sentir nas suas paredes a condensação de cada lágrima. 

Teria mesmo dado o meu Meccano por uma só carícia sua! 


Passaram-se cinquenta anos e não a esqueci. 

Não sei se foi amor, fantasia, loucura, química, ou tudo junto, provavelmente que tudo seja a mesma coisa; mas nestes anos aprendi algo sobre este estranho fenómeno. 

Podes apaixonar-te horas ou inclusivamente anos, de aquém te ama e odeias, do que queres e não suportas, do que existe e não conheces, de um proxeneta príncipe azul, de umas costas desnudas, de uma mulher de cem homens, de um homem que não é homem, de ti ou de ninguém. 

Para ser amplamente feliz não é necessário acasalar-se, apaixonar-se ou amar, mas para deixar de sê-lo basta tão só em fazê-lo com a pessoa equivocada. 

Demasiados casais estão com quem podem e não com quem querem. 

A dependência nutre a cobardia e, nestes casos, o conformismo mata a ilusão dando aso a uma espécie de simbiose parasitária em forma de par ou casal, casamento, namoro ou noivado. 

As pessoas não amam, emparelham-se. 

Não acredito nos casais, mas sim no casal, não creio na fidelidade, mas sim na lealdade, não creio no amor, mas sim na sua probabilidade. 

E um dia a probabilidade cumpre-se e encontras-te com o coração de treze anos chapinhando num oceano para dois, com a utopia por desempacotar e compartir o teu primeiro Meccano. 

Nesta matéria… não vale a pena substitutos. 
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2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Os sapatos agora são todos para exportação, muita descalça haverá no país, se será condessa ou não, isso depende de D. Pio, em dar o título (pensando bem, nunca mais vi o D. Duarte nas notícias, que será feito dele).

Jose Torres disse...

Táxi Pluvioso

Talvez tenha perdido o pio e o procure afanosamente e em silêncio.