O VIDEIRINHO

terça-feira, setembro 07, 2010

TRAGÉDIA NUM PISCAR D’OLHO

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Salvador Dali - Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã um segundo antes do despertar


Quando chega a hora da verdade todo o mundo se queixa.

O extraordinário é o modo e a tardança em chegar a esta situação lastimosa, em que há que aplicar um recorte tão brutal ao gasto.

Depois de negar a crise, depois de ser considerada uma simples importação de turbulências financeiras ante os países que tinham um “poderoso” sistema financeiro, depois de perorar sobre as soluções sociais-democratas, depois de deixar gangrenar na mesa de negociações de interesses particulares uma reforma laboral, que se pedia há muito, depois de pretensiosamente assegurar que nos podíamos permitir retrasar o principal do recorte do gasto para os anos 2012 e 2013, depois de repetir que os salários dos funcionários públicos – aumento incluído – eram intocáveis, deparamos, num prazo de tempo, de visita de médico, ou o que se demora no WC, entre o pegar no papel higiénico e limpar o olho da consciência dos políticos, com o anúncio pesaroso de um corte de milhões nos próximos anos.



Tenha-se em conta, além do mais, que o acordo recente, em meter a mão no bolso dos portugueses, vem precedido do desprezo a propostas de outros quadrantes.

Sempre se disse que os contrários se equivocavam quando pretendiam o adiantamento no corte dos gastos.

Compreende-se assim, por tudo isto, o desespero geral, não só pelos cortes em si mesmos, mas também, pelo tempo perdido enquanto se apresentava como esperançoso o que era lamentável.

O corte, com realismo, podia ter sido bem mais ordenado.



E, concretamente, a irritação da oposição, tachada de antipatriota, de catastrofista, até que o Governo teve mesmo que fazer o que agora fez, com pressas e um toque de improvisação, por ter sido pressionado pelos seus sócios da EU e o presidente dos EUA.

Fizeram-se tão mal as coisas.

Foram à portuguesa.

O PSD, além de queixar-se sobre as consequências de tão longa paralisia, pede mais.

Alguns cortes foram colocados para a tesoura tesourar; como o adelgaçamento do Governo, o stop ás megalomanias da nossa pelintra pequenez, com obras faraónicas, não se suporão suficientes para um aforro das dimensões de que se necessita, ainda que não sejam desdenháveis, seguramente procurariam um efeito de maior erosão de um chefe de Governo dedicado até hoje a medidas e desculpas cosméticas.


Outros cortes, como os referentes a subvenções, têm maior calado porque, nas dramáticas circunstâncias actuais em que os sacrifícios directos se estendem tanto, há que fazê-los incidir sobre outros gastos menos essenciais.

E, desde logo, ter terminado a época de somar apoios com dinheiro público.

Talvez o governo esperasse um maior apoio às novas exigências ou necessidades.

Em todo o caso é algo que se devia ganhar.



Chamo a atenção, que apesar das pressas e das pressões exteriores, os anúncios feitos pelo Ministro das Finanças, só em parte foram negociados com parte da oposição, o que se devia ter negociado num maior “encosto”.

Mas, além do aforro, o fundamental é iniciar com a máxima urgência um programa de reformas estruturais de que se necessita.

As contas públicas e o emprego dependem do crescimento e a protecção social está vinculada ao aumento do emprego.

O despertar do governo, zaranzeado por sócios e amigos, foi trágico, mas junto ao que não nos podemos permitir está também o que devemos fazer com urgência.

(escrito em 14.05.2010)

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3 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Primeiro cortaram as unhas aos portugueses para que não arranhem, agora podem fazer-lhes tudo. E a procissão ainda vai no andro.

Táxi Pluvioso disse...

... digo adro.

xistosa - (josé torres) disse...

Táxi Pluvioso

Este pessoal tem a vantagem pelo seu lado das unhas crescerem sempre e de poderem apará-las quando quiserem.
Até depois de morrermos crescem ...
Este "pessoal" não dá ponto sem nó ...