Sexta-feira, Março 13, 2009

AMARGAS DELÍCIAS

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Há uns anitos, uma amiga, jornalista do JN, perdeu a sua “grande angular”, num descuido.

A sua agenda.

Essa agenda em que cada folha, de “a” a “z”, além de guardar por ordem, telefones e endereços, ressumava recordações, anedotas, entrevistas, momentos e detalhes únicos como um profissional e como amigo.

Uns minutos de distracção e aquele “valioso” espólio, desapareceu dos ares do Porto.

Sempre pensou que foi um roubo profissional e um golpe baixo para ela, que padecia de uma estranha mania persecutória.

Naquela altura eram agendas.

Agora são os telemóveis e os roubos tornam-se frequentes onde os satélites exercem funções.

Esse pequeno a subtil aparelho, representa para muitos a grossa agenda da minha amiga jornalista.

Agora continuamos no Porto.

Mas foi em Matosinhos.

Ela deixou o seu Nokia, no balcão, junto ao copo com os restos duma qualquer bebida.

Ela conhece muito bem este local.




Sente-se como em casa.

O seu telemóvel aprisionou momentos e imagens mágicos.

Sorrisos, amanheceres.

A última Passagem de Ano.

A última viagem.

A última mensagem recebida.

A última enviada. E que nunca devia ter enviado.

Versos, cores, risos.

O mais parecido com o diário que nunca escreveu.

O descuido do Porto repetiu-o em Matosinhos.

O “telediário” ficou só.

A seu lado, o copo quase vazio.

Mais tarde ela precatou-se.

Mas nada voltou atrás.

Arrebataram-lhe um pedaço da sua vida.

Algo mais que dados.

Facilmente.

Fica um pequeno detalhe por contar.

Quem o roubou, não poderá usá-lo nunca.

Pequenas vantagens, tretas ou vinganças que as marcas propõem para que o ladrão saia escaldado.

Chama-se “e-mail” com não sei quantos dígitos.

Ao marcá-los inutilizou esse telemóvel para toda a vida.

Pequenas satisfações para mitigar grandes decepções.

Mas a vida é mesmo assim.





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