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Há uns anitos, uma amiga, jornalista do JN, perdeu a sua “grande angular”, num descuido.
A sua agenda.
Essa agenda em que cada folha, de “a” a “z”, além de guardar por ordem, telefones e endereços, ressumava recordações, anedotas, entrevistas, momentos e detalhes únicos como um profissional e como amigo.
Uns minutos de distracção e aquele “valioso” espólio, desapareceu dos ares do Porto.
Sempre pensou que foi um roubo profissional e um golpe baixo para ela, que padecia de uma estranha mania persecutória.
Naquela altura eram agendas.
Agora são os telemóveis e os roubos tornam-se frequentes onde os satélites exercem funções.
Esse pequeno a subtil aparelho, representa para muitos a grossa agenda da minha amiga jornalista.
Agora continuamos no Porto.
Mas foi em Matosinhos.
Ela deixou o seu Nokia, no balcão, junto ao copo com os restos duma qualquer bebida.
Ela conhece muito bem este local.
Sente-se como em casa.
O seu telemóvel aprisionou momentos e imagens mágicos.
Sorrisos, amanheceres.
A última Passagem de Ano.
A última viagem.
A última mensagem recebida.
A última enviada. E que nunca devia ter enviado.
Versos, cores, risos.
O mais parecido com o diário que nunca escreveu.
O descuido do Porto repetiu-o em Matosinhos.
O “telediário” ficou só.
A seu lado, o copo quase vazio.
Mais tarde ela precatou-se.
Mas nada voltou atrás.
Arrebataram-lhe um pedaço da sua vida.
Algo mais que dados.
Facilmente.
Fica um pequeno detalhe por contar.
Quem o roubou, não poderá usá-lo nunca.
Pequenas vantagens, tretas ou vinganças que as marcas propõem para que o ladrão saia escaldado.
Chama-se “e-mail” com não sei quantos dígitos.
Ao marcá-los inutilizou esse telemóvel para toda a vida.
Pequenas satisfações para mitigar grandes decepções.
Mas a vida é mesmo assim.
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