Domingo, Março 01, 2009

AREIAS do DESESPERO

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A areia, que apesar do que se diz não é incalculável nem infinita, padece de Alzheimer.

Não tem memória no Inverno, nem da criança que se empenha arduamente em meter todo o mar no seu balde de plástico, nem da cor dos toldos ou das barracas dos banhistas.

Até que cheguem as ruidosas e ávidas gaivotas, será um fragmento ou retalho dum mapa do deserto.

Tenho muitos (imensos anos) perto do mar.

Nasci por aqui e decidi passar aqui, frente a ele, a maior parte do tempo que me resta, ou que eu penso que lhe resta a ele, com medo do Inverno, que é sempre o mesmo.

Quando não há dinheiro suficiente para aguentar os invernos da velhice, a solução é só uma: ir para uma cidade onde não haja inverno.

Se fosse o caso da minha, melhor seria, ou seja, seria menos mal.

O que vejo e sinto é que a crise está a afectar inclusive a paisagem.

Vê-se menos gente pelas ruas e muito menos em restaurantes e até bares.

Por fortuna, a "moeda do sol", que se suspeita ser a única para muitos, continua por aí.




Desfrutámos duma época de insensato bem-estar, muito mal repartido, mas agora até nos estão a tirar a música para dançar.

Já não se vêem gruas e esses “Diplodocus longus” de ferro que constituíam a fauna da nossa economia emergente.

Só se vê letreiros a dizer: “Vende-se”.

São, digo eu, a melhor campanha contra o analfabetismo, já que todo o mundo é obrigado a lê-los.

Se pudesse, compraria uns quantos andares, porque apesar dos actuais sentimentos de abatimento, acredito e confio na minha terra e no meu mar.

A que é que estamos a chamar penúria?

A viver menos?

Desde logo a algo muito diferente disso que esses emigrantes, quer do leste, quer subsarianos, que chegam ás costas sul de Portugal, mas principalmente da Espanha, em cascas de noz e, portanto, muito mais a sul da minha areia e do meu mar.

Os que não vão ao fundo, chegam ás areias da costa, homens, mulheres e crianças.

Crianças idênticas ás que vejo no Verão, vindas de algum outro local, intentando meter todo o mar nos seus baldes de plástico …



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2 comentários:

scrapie disse...

São as ondas de desconfiança no presente e no futuro que se abatem na nossa sociedade.Vivemos uma época de ilusão e consumismo desenfreado sem alicerces.O sistema económico assente num gigantesco castelo de cartas com um sopro desmoronou-se .O que é mais grave é que ninguem vai tirar ilações desta crise que é uma palavra que paira sobre nós como uma sombra negra.
É tempo das pessoas mudarem a paisagem de maneira diferente.De se juntarem e conviverem sem ter que ser em restaurantes ou esplanadas.Irem a praia,fazerem reuniões de amigos em casa para uma boa cavaqueira,de voltarem a fazer parte de um grupo porque o individualismo duma sociedade virada para o consumismo tambem nos atirou para o egoismo grosseiro e para a solidão

xistosa - (josé torres) disse...

Scrapie

O prato de açúcar que o nosso país era ... acabou ...
Todos os inséctos começaram a fugir.

Aqui só há uma coisa que aumenta, a CORRUPÇÃO.
É um fartar vilanagem há uns bons e largos anos.

Basta ter os braços compridos e uma mão grande ... e estamos todos de rastos.

Aqui os políticos são os administradores de roubos ...