Carolina Michaellis
Os meses de gestação no ventre da mãe são um período transcendental da nossa vida.
É nele que se dá o processo de diferenciação sexual, que todos seguimos desde que começámos como uma simples célula.
Sucedem-se interessantes etapas que nos dão motivo para reflexão sobre a essência do que entendemos ser homem e ser mulher.
O dimorfismo sexual (em português, uma pobreza de explicação. Por isso veja aqui em inglês), ou seja, a possibilidade que temos, os humanos, de possuir uma anatomia de homem ou mulher, é gestativo no útero materno e marca toda a nossa vida.
A consideração do homem – ser humano masculino – como centro do universo, que historicamente perdurou até há bem pouco tempo, deixou de existir e deu lugar a duas pessoas: mulheres e homens em absoluta equidade de sexos.
Galeno, cujos pontos de vista perduraram por mais de mil anos, considerava que os homens procediam do testículo direito e, inclusive as suas primeiras observações, com o recém-inventado microscópio, fizeram-no acreditar ver diminutos homens ou mulheres “aconchegados” na cabeça dos espermatozóides.
A influência da perspectiva masculina era tal, que se considerava que a mulher era um simples receptor no qual germinava a semente que o homem aporta.
Curiosamente, hoje sabe-se que todos estamos programados para nos desenvolvermos como mulheres, salvo que no processo de desenvolvimento intervenham factores diferenciadores no sentido masculino.
O primeiro factor diferenciador conhecido é a presença do cromossoma Y na dotação do óvulo fecundado que todos começamos por ser.
Sabe-se que se o espermatozóide que fecunda o óvulo é portador do cromossoma Y (veja também, aqui em inglês), o feto será masculino.
No caso de não haver a presença do cromossoma Y, as gónadas, simplesmente, desenvolvem-se como ovários.
Portanto, o “fazer-se homem” é um “descaminho”, já que se não ocorre “algo” que nos desvie do caminho, todos estamos programados para ser mulheres.
Curioso também e de destacar é que são as hormonas femininas que fazem com que o homem tenha um cérebro de homem.
As hormonas tipicamente femininas (estrogénios) são as que diferenciam o cérebro no sentido masculino.
Esta diferenciação ocorre num período concreto do desenvolvimento do feto.
Depois do nascimento, encerrado o período crítico, não mais é possível a reversão do cérebro masculino em feminino e vice-versa.
A investigação sobre os mecanismos moleculares implicados nestes processos promete futuros recursos terapêuticos para a intervenção em transtornos da conduta sexual.
Também antecipa que iremos dispor de fármacos sexuais dimórficos, o mesmo é dizer, fármacos específicos para cada sexo, com indicações e acções diferenciadas, segundo seja homem ou mulher quem os vá tomar.
Esta determinação do masculino e do feminino explica-nos os estereótipos do género, já que há muitas maneiras de sentir-se homem ou mulher, segundo a sociedade e o momento histórico em que se vive.
Para tua introspecção:
- Acreditas que homens e mulheres têm formas de ser e pensar diferentes e próprias pelo facto de o serem (homens e mulheres)?
– Na forma de pensar de homens e mulheres, o que consideras que pesa mais, a biologia ou a cultura?
– Alguma vez te interrogaste o que teria sido a tua vida se tivesses nascido de sexo diferente?
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2 comentários:
Aprendi umas coisas novas ao ler este post. Do cromossoma Y já sabia mas nunca tinha pensado que a nossa programação inicial é o sexo feminino e que é preciso um defeito (que mázinha, hehehe) para se ser do sexo masculino. Daí existirem mais mulheres que homens?? A natureza evita os defeitos??? (mázinha outra vez...)
Respondendo às perguntas com base nos meus 40 aninhos de experiencia:
1ª Sim, a forma de encarar a vida e de raciocinar entre homens e mulheres é diferente. Está provado que uns e outros tiram mais partido de diferentes áreas do cérebro.
2ª A cultura pois as pressões exteriores ao indíviduo conseguem ser, na maior parte do tempo, mais influentes. Mas, claro, não é regra.
3ª Bem pequenina lembro-me de dizer que queria ser rapaz, vá-se lá saber porquê. Será que em tão tenra idade já tinha percebido que ser homem tinha muito mais vantagens? Pelo menos sabia que sendo rapaz já não esperariam que tivesse sempre o meu quarto arrumado e que fizesse a cama...
Enfim, mulheres e homens, da mesma espécie mas muito diferentes. No entanto, não opostos, mas sim complementares.
Um abraço.
Helena Paixão
E não é só nos humanos.
A tendência é nascerem "fêmeas", mas o mais engraçado, é que em conversa com um ginecologista, disse-me que era mais fácil "fazer" um rapaz.
Já o pai dizia o mesmo (também era ginecologista, agora está velhote e deixou de exercer).
Mas curioso é que ele foi o médico que seguiu uma cunhada minha que teve 6 filhas (não sei se 3 ou 4, nascidas em Lourenço Marques) e só depois na 6ª, recordo-me como se fosse hoje, porque a minha mulher estava grávida e na altura não havia as técnicas como hoje e ele disse-me que era um rapaz e foi. Mas aos meus cunhados nunca lhes disse nada disso e eles gostavam de ter tido um filho.
Cheguei a confrontá-lo, mas o que penso é que ele não tinha mãos a medir - dr. Luís Dupont - e queria lá saber se a grávida tinha mais filhos ou não.
Agora já discutem com os pacientes as diversas decisões, mas antigamente eram uns deuses.
Parece que a relação homens mulheres não tem ligação directa, mas a medicina também me parece que não sabe, porque há alturas que só nascem rapazes e noutras nascem mais mocinhas.
Para rematar é mesmo uma complementaridade de sexos.
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