O VIDEIRINHO

domingo, outubro 03, 2010

CEGA OBEDIÊNCIA

.


Desde que em Nuremberga os acusados nazis alegaram, em sua defesa, ter cumprido ordens e sobretudo desde que os "militarões" argentinos invocaram a sua “obediência devida” e, nos Balcãs, por "dever hierárquico”, o subterfúgio atingiu tal popularidade como o hilariante “Não fui eu” de Bart Simpson.

E o assunto não passaria da categoria de má facécia se não fosse porque em 1963, na Universidade de Yale, o professor Stanley Milgram, demonstrou que em cada um de nós há um torturador em potência.

Foi discreto, mas brilhante.

Fazer crer a um tipo, voluntário, recrutado ao acaso na rua que, a partir de um comando, pode enviar descargas eléctricas de 15 a 450 vóltios com destino a uma cadeira eléctrica, situada do outro lado de uma janela e ocupada por uma suposta vítima.

Através de um microfone, o voluntário pronuncia para a vítima uma série de palavras para memorizar.

No final da série, o voluntário pede à vítima que as repita pela ordem exacta.


Por cada falha, o voluntário envia à vítima uma descarga eléctrica de voltagem crescente, bem inteirado de que a partir de certo limite a descarga pode ser fatal.

À medida que as descargas vão aumentando, o voluntário começa a vacilar, sobretudo porque vê como a sua vítima dá sinais de um sofrimento cada vez mais intenso e ouve os seus gritos de dor.

Implacável, Stanley ordena-lhe que não vacile, que envie a descarga pois era esse o acordo inicial.

Para o tipo, a vítima realmente sofria.

Mas a vítima só era cúmplice de Stanley Migram e o sofrimento era fingido.

Espantoso foi o resultado: 62% dos tipos voluntários chegaram a aplicar voltagens letais.

Nenhum se negou a fazer sofrer a vítima.

Todos aceitaram sem dar um pio a ordem de Stanley Migram.

Ou protestaram apenas.

Torturadores.

Mas cega obediência.



Passaram quase 50 anos e a pergunta que se faz – ou que se deveria fazer – é que ordens e de quem se recebem hoje e, se obedecidas, porque se obedecem no dia a dia?

Não faltam exemplos.

Ordens dos pais, dos professores (não é piada, não), da polícia de trânsito, de ilustres desconhecidos … mas também ordens publicitárias, principalmente pela televisão, ordens morais a partir do púlpito, ordens sociais de parte dos partidos políticos …

A sociedade uniformiza-se inexoravelmente: a moda, a falta de moda, o penteado, ou o despenteado, ao ver determinadas porcarias no cinema, o enrouquecer em concertos de hip-hop, o aplaudir sem compreender, o exercício da violência, decisões em todos os níveis da vida - e o mundo torna-se cada vez mais violento e … aborrecido -.

Mas agarramo-nos a ele com unhas e dentes!

. 5JUL2010

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

É o dilema de Rousseau, que o nosso Eça escreveu no Mandarim.