O VIDEIRINHO

segunda-feira, outubro 11, 2010

VINDIMAS (PARTE II)

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... Continuação



Cheiram os campos ainda verdes que empreenderão muito em breve uma fantástica viagem cromática até ficarem mortos, secos, à mercê de ventos e humidades que os mesclarão com as ervas outonais e ficarão sepultadas pelas intempéries do inverno.

Exala também a uva, a boa uva, madura e cheia, que não pode aguentar nem mais um dia pendurada das cepas.

É difícil resistir à tentação de picar aqui e ali, emborrachar-se de grãos virgens, enquanto as mãos vão adquirido uma pegajosice que contamina tudo.

Dizem os especialistas que um dos melhores remédios para conseguir a suavidade da pele é lavar-se com água limpa depois de uma jornada vindimadora.



Surpreende-me que os traficantes da estética não tenham redescoberto esta antiga e extraordinária cura de macieza facial.

Um campo vindimado fica silencioso, triste, disposto a sumir-se numa transformação rápida e definitiva.

O cair das folhas, antes ou depois de passar um rebanho que devore todo o sinal de vida, é o começo de uma longa letargia que só despertará quando os primeiros brotos dos futuros bacelos voltem a assomar timidamente lá para Abril.

A uva, a boa uva é a que durante duas semanas fica agarrada aos sarmentos.



São cachos pequeníssimos que não tinham amadurecido ao vindimar.

Cinco a seis bagos que vão engordando, arredondam-se, adquirem uma cor rosácea e são cobiçados pelos sibaritas da boa uva.

Convido-vos a viver esta experiência sublime.

Não acredito que os vinhateiros o impeçam.

A doçura destes resíduos parentes da vinha é requintado, notável, vinho de puro mel.

Bebam, empanturrem-se, emborrachem-se de etéreos éteres e por mim, para além de tudo isto, vou tentar acompanhar com um amanteigado queijo e um trigueiro pão.

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