.
Aquele dia não se concluiu na hora vinte e quatro.
Os relógios começaram a patinar no vazio de um tempo incógnito e misterioso.
Milhões de humanos, ante a desprogramação televisiva e o caos horário dos meios de transporte, fugiram a pé para um futuro que não figurava escrito.
Quando ás duas e vinte e três se restaurou o horário correcto, apanhou-os fora das coordenadas temporais válidas.
Foram considerados legalmente desaparecidos, fizeram-se funerais massivos e, como emotiva homenagem, esse dia passou a considerar-se festivo.
Por decisão administrativa, instituiu-se oficialmente uma Jornada Anual da Ausência.
Em cada aniversário celebrava-se a comemoração.
Ás vinte e quatro em ponto, em honra aos ausentes, paravam-se os relógios durante duas horas e vinte e três minutos.
Amigos e familiares dos fugitivos juravam que, nesse lapso de tempo, aqueles apareciam outra vez, vestidos com a mesma roupa de então, semblante distraído, aparentemente (in)felizes, como se nada tivesse acontecido.
.
1 comentário:
Devia ser o relógio do Portas, ele todos os dias lhe dá corda.
Enviar um comentário