TOQUE DE ILUSÃO
.
De quando em vez
aborreço-me de ler junto à piscina, que não possuo e de tocar piano, que não
sei, no salão principal, que não existe, assim sendo, desço até à catacumba que
é a cave, que não há, e acomodo-me no meu sofá Chester vermelho, que é uma
miragem, e delicio-me com um whisky Macallan 1946, que nunca chegarei a provar,
deleitando-me com o que me proporciona um móvel: o segredo da minha vida, o que
maiores alegrias me deu, este sim, um "ser vivo".
Como me tranquilizam, como me dão razão ao que sou…
Todos vivem agora, mais e melhor comigo, que quando passavam os seus anos apegados
a um rosto estranho, a uma existência que não escolheram.
Onde melhor que aqui!
O cinema tem-me feito muito mal.
E é que, a qualquer pessoa com coração, pode
ser frio, desagradável e condenável vê-los dançar naqueles néons de um azul
celeste, com tanta elegância e dignidade, procurando nos meus olhos o que eu
encontro neles: a possibilidade duma história; a que nunca tive com a mulher que
nunca quis olhar-me.
.
4 comentários:
Olhar elas olham, apalparem é que é mais difícil.
Li 2 duas vezes.Percebi. A grande curiosidade no entanto foi ir espreitar o sofá Chester vermelho. Adorei!
Margarida
Táxi Pluvioso
Mas é necerssária substância...
Anónimo - Margarida (ainda não sei quem é esta “bellis perennis”)
Dois olhos devolvendo um olhar morto.
Sou assim; coleciono olhos humanos até que a polícia se inteire.
Mas um dia deixarei de tocar piano, ler e beber e então sim, descerei à cave (catacumba) e voltarei e encapsular o meu segredo.
Enviar um comentário