O VIDEIRINHO

quarta-feira, março 26, 2014

RUPÍCOLA

.



O último do clã não teve tempo para chorar a sua família. 

Virando as costas ao amanhecer, voltou à gruta, afiou o sílex e com o sangue do seu peito começou a pintar nas paredes o que acabava de ver, o que tinha sentido sobre esta terra alaranjada de brilhos de vida e sombra. 

O último do clã entregou o seu sangue derramado na escuridão da gruta, quando o sol já lambia, lá afora, toda a extensão do seu mundo: as planícies onde o seu pai lhe ensinou a caçar, onde a sua mãe lhe presenteou imaginação, onde brigou por um troço de carne, onde soube, sem o saber, que as nossas impressões (pegadas) são beijos que só a terra entende. 

 

A gruta pariu, ao ver-lhe as bochechas secas, lágrimas de estalactites; e no seu frio e na sua penumbra, ele não pôde terminar de encher as paredes do que ia ser o primeiro retrato da solidão da história da arte. 

Essa honra teve-a o húmido solo, que conseguiu converter o nosso homem em colapso num quadro infinito, escondido nas entranhas de um anteontem que não conseguiremos compreender em nenhum futuro (qualquer que ele seja). 

Um quadro da nossa solidão, virando as costas ao amanhecer.
.

3 comentários:

Nadir disse...

O que escreveste fez-me ir buscar pensamentos lá bem ao fundo onde guardo, aqueles aos quais coloco o rótulo de reflexões. Será que o homem primitivo, o tal das cavernas, teria sentimentos como o homem de hoje em dia? As alegrias eram expressas da mesma forma? E as tristezas, as perdas e o desânimo? Saberia ele o que era solidão ou ainda, será que a sentia? Eu acredito que não. O sangue primitivo que lhe corria nas veias chegava por decerto ao coração, em forma de instinto de sobrevivência e, era esse instinto que dominava por completo a sua existência. Não seria um sentimento, um estado de espirito, era apenas um instinto. Acreditando nisto, eu consigo ainda ir mais longe e pergunto-me: Ele era mais feliz que nós? Não que ele soubesse o que era a felicidade mas, dessa forma, também não saberia o que era o seu contrário.

Nadir disse...

Desculpa não assinei o comentário


Margarida, agora identificada para que não te percas.

Jose Torres disse...

Nadir

(ESTA NÃO É NENHUMA DAS MINHAS NADIRES!!! rsrsrs)

Confrontar sociedades distintas é sempre um problema mas, os diversos sentimentos devem ter nascido com o homem. A tristeza e a alegria certamente que eram os mais plausíveis e o sangue também tinha que correr nas veias, mais depressa ou mais devagar, conforme a sua companheira fosse mais ou menos “apetitosa”, ou a hora, ou o “peso” do sono (rsss rss rss)… daí a sua felicidade intrínseca.
O matar um animal, construir um abrigo, atravessar um rio, colher as bagas de eleição, arrastar a mulher pelos cabelos para a subjugar no catre, fazer fogo… sei lá. Muitos destes sentimentos atravessaram todas as épocas e qie ainda hoje, continuam a campear nuns cavernícolas (que sobreviveram) e que a civilização ainda não conseguiu domar e eliminar.
O homem nasceu com uma “inquietação” nata e sempre procurou mais e melhor e tanto assim foi que os centros comerciais cresceram como cogumelos venenosos em todo o mundo, daí a satisfação (que para mim é genética) e depois a desventura.
Não vou falar na religião, penso que nos primitivos, o deus deles, era um abrigo para as tempestades, um animal fácil de caçar e… tudo o que um simples mortal pode desejar (mortal daquelas épocas, está claro) para viver. Certamente que não haveria a faustosa fé (com ouros, pedras preciosas, brocados…) de igrejas, mesquitas e outros antros de lavagem de almas e corpos, que falas melífluas ou untuosas encandeiam como pegureiros das serranias.
É tudo o que me urge e surge de momento e já não é pouco.