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Podia ser outro, mas fui eu o
eleito.
Nestes momentos apareço em plano médio em todas as televisões do país.
Dizem-me que o plano americano não é apropriado para alguém sentado.
Do
primeiro plano não dizem nada, mas sei que o descartam pela minha idade.
Aí estou, digo, para todos, ao vivo.
O sonho e o pesadelo de muitos que só eu e os terroristas executamos, ainda que nem sempre com agrado.
Realizo o meu dever de modo inquestionável, como quase todos me dizem.
Quem encontrar um defeito que não se corte.
O meu gesto é sério mas sereno: confio nas minhas capacidades e na experiência, que sei ser em vocês um nível, no meu caso são dois.
E além disso, que porra!: a câmara adora-me e eu não a trato mal de todo, ainda agora mudou de ângulo sem o meu consentimento para mostrar algo mais: as minhas mãos, ancianas como o meu rosto e seguras dos seus movimentos, como tudo em mim.
De passagem, o espectador aborrecido pode centrar-se noutros detalhes: o jardim que a janela deixa entrever e o mobiliário.
Acabo de falar sabendo que tudo saiu perfeito: a minha entoação, a minha dicção, o conteúdo e, já o disse, a minha expressão.
Vejo o chefe de redacção a esconder-se atrás das câmaras e a sorrir, como nas quinze vezes anteriores.
Creio que isto significa que me calhará gravá-lo de novo.
Enquanto a maquilhadora me limpa os brilhos, com o olhar procuro a Sara: já não está.
A experiência é para vocês um grau, para mim dois e para ela três.
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