O VIDEIRINHO

sábado, março 08, 2014

VAPORES ETÍLICOS

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Cioran quando está a ponto de emborrachar-se. 

O “a ponto” é importante, necessário. 

Porque se está borracho quando lê, como outrora, ri-se como uma hiena ou quebra contra a sua testa o que encontra primeiro, que pode ser um copo, uma garrafa, o balcão junto ao qual está sentado ou noutra frente. 

Ainda assim: melhor que leia Cioran quando estiver ás portas da ebriedade, no exacto momento em que a loucura arrasta a lucidez para um terreno neutro, de ninguém; lá onde tudo não é que seja real, é que, simplesmente, é. 

E quando já terminou um par de folhas do livro que sempre leva no seu bolso, fecha-o, deixa-o sobre os seus joelhos, e então sim, então pede o whisky definitivo: o mais barato que haja no bar. 

Regado com um suspiro de água, nada mais. 

E guarda silêncio entre um trago e outro e quando traga, também. 

 

Escuta-nos falar das nossas ninharias, olha com desdém os cus alheios que vão e vêm, sopra sobre as nossas cabeças como se nos sobrasse algo. 

E continua em silêncio. 

Pouco depois apoia a sua face no balcão, fecha os olhos e dorme. 

Nós recolhemos o livro de Cioran e lemo-lo entre arrotos de quarenta graus. 

É perigoso: não demoramos em partir contra as nossas testas o primeiro que temos à mão: os nossos copos, uma garrafa, a frente de nosso dormente amigo. 

E na lombada do livro, sempre, Cioran  ri-se com total seriedade. 

É um tipo do carago, leia-se por onde se leia.
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