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Lê Cioran quando está a ponto de emborrachar-se.
O
“a ponto” é importante, necessário.
Porque se está borracho quando lê, como
outrora, ri-se como uma hiena ou quebra contra a sua testa o que encontra
primeiro, que pode ser um copo, uma garrafa, o balcão junto ao qual está
sentado ou noutra frente.
Ainda assim: melhor que leia Cioran quando estiver ás
portas da ebriedade, no exacto momento em que a loucura arrasta a lucidez para
um terreno neutro, de ninguém; lá onde tudo não é que seja real, é que,
simplesmente, é.
E quando já terminou um par de folhas do livro que sempre leva
no seu bolso, fecha-o, deixa-o sobre os seus joelhos, e então sim, então pede o
whisky definitivo: o mais barato que haja no bar.
Regado com um suspiro de
água, nada mais.
E guarda silêncio entre um trago e outro e quando traga, também.
Escuta-nos falar das nossas ninharias, olha com desdém os cus alheios que vão e
vêm, sopra sobre as nossas cabeças como se nos sobrasse algo.
E continua em
silêncio.
Pouco depois apoia a sua face no balcão, fecha os olhos e dorme.
Nós
recolhemos o livro de Cioran e lemo-lo entre arrotos de quarenta graus.
É
perigoso: não demoramos em partir contra as nossas testas o primeiro que temos à mão: os nossos copos, uma garrafa, a frente de nosso dormente amigo.
E na
lombada do livro, sempre, Cioran ri-se com total seriedade.
É um tipo do
carago, leia-se por onde se leia.
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