O VIDEIRINHO

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

CONSANGUÍNEO

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A caminho do hospital, a passageira (enfermeira, suponho) recebeu uma mensagem no seu telemóvel. 
Estava em alta voz: 

- URGENTE: Necessitamos sangue do tipo A+. 

– Caramba!, exclamei. 

– O senhor é dador?, perguntou-me. 

– Sim, disse-lhe. 

– Do tipo A+? 

– Não se nota?, disse-lhe sorrindo. 

– Não se importa de doar quando chegarmos ao hospital? 
Parece ser um caso urgente. 

– De acordo, disse sem pensar. 

Cinco minutos depois estacionei junto da Urgência, a passageira entrou, falou com alguém e regressou para me conduzir pelos corredores até à sala de transfusões. 

– Deite-se e desnude qualquer um dos braços. 
O que mais raiva lhe dê. 

Como sempre me tem lixado mais a canhota, optei por desnudar o braço esquerdo. 


A enfermeira amarrou-me os bíceps com um elástico, desinfectou-me o reverso do cotovelo (nunca soube como se chama esta parte de braço ou da perna), sacou de uma agulha de uma gaveta e, sem avisar 'injectou-ma'. 

Senti, notei e vi a agulha a penetrar a minha pele.

No mesmo instante o sangue começou a percorrer as curvas de um tubito que morria numa bolsa enrugada. 

O meu sangue, de um vermelho carvão, a sair para fora de mim”, pensei
“Os meus glóbulos, as minhas plaquetas, o meu ADN. 
A minha essência misturar-se-á com outro sangue, percorrerá a intimidade de outro corpo...”. 
“E esse outro corpo que não conheço nem conhecerei mover-se-á para sempre com fragmentos do meu mesmo sangue e levará outra vida que também será minha vida sem eu vê-la

 
E talvez, algum dia, esse outro ser (homem ou mulher; o sangue não tem sexo) cortar-se-á sem querer com uma folha de papel ou até uma faca doméstica e saltará, do seu dedo, esse sangue que também é meu. 
E abrirá a torneira da cozinha, colocará o dedo debaixo e a água arrastará o meu sangue que é o seu, através do esgoto e daí para os colectores e destes para o rio ou para o mar (isto se as ETAR continuarem a funcionar sem funcionar). 
E a sua essência que é a minha rondará o rasto de uma sereia e essa sereia cantará por aí para ele, ainda que ele seja eu. 
E eu quero que a sereia cante só para mim, mas já é tarde. 
O meu sangue está na bolsa. 

 
 
A enfermeira retira a agulha. 
Vai-se com o meu sangue”. 

Completamente só em casa (nem sequer tive tempo de convidar a enfermeira), sem parte do meu sangue, pensei nessa bela sereia suspirando pela minha doação e nisto comecei a empalidecer: tive uma tontura e quase perco o conhecimento. 

Foram os ciúmes... não há qualquer dúvida. 

Nota: 
Duas sandes, reforçadas, de presunto e uma garrafa de “tintól” depois, comecei a sentir-me melhor. 

Moral: 
Se sofrem de ciúmes, comam algo. 
Sentir-se-ão muito melhor.

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