O VIDEIRINHO

sábado, fevereiro 04, 2012

FILHA DA VIDA!

 .


Fez uma breve pausa, respirou fundo, fechou os olhos e extraindo forças do ar do táxi voltou ao telefone. 

- Que o tio João não é em realidade o tio João, senão o meu pai. 

A mamã e João tiveram, digamos, um deslize quando eram jovens. 

E o papá (ou o tio Tomás, já não sei como o chamar) nunca o soube. 

O pobre morreu acreditando que eu era a sua filhinha do coração. 

Soube-o esta quinta-feira, não te admires. 

Contou-me a minha mamã. 

O certo é que ela e João continuaram com o seu amor em segredo, até hoje.

Que loucura!

E agora que já passou um tempo prudente desde a morte do papá (perdão, Tomás), estão decididos a contar ás pessoas e a retomar a sua vida como se não se tivesse passado nada. 

Querem viver juntos, recuperar o tempo perdido (?) e quem sabe, também casarem-se. 

Eu não sei o que pensar. 

Isto é de loucos, como um pesadelo. 

Pobre Tomás. 

Agora penso muito nele, seja lá onde estiver.


Enfim... Preferia dizer-to pessoalmente, necessitava contar-to, imagina o choque, mas agora dizes-me que não tens previsto vir ao Porto até Junho e eu não podia esperar tanto… 

O seu interlocutor disse algo, que voltaria a telefonar para falarem com mais calma, suponho, porque ela soltou um: “Está bem, está bem” e desligou; fez-se silêncio em todo o comprimento e largura do habitáculo do táxi. 

Fiquei absorto. 

Não entendia porque tinha deixado de chamar pai, ou papá, ao que sempre 'foi' seu pai. 

Para efeitos práticos, Tomás sempre tinha exercido como tal, acreditando ser o verdadeiro pai dela e ela, por sua vez, acreditando ser a sua verdadeira filha. 

A nova notícia só acrescentava um ligeiro, ainda que enorme matiz consanguíneo, genético, apesar que, de certo modo, quase idêntico: dava-se a circunstância de que João e Tomás eram irmãos.


Inclusivamente ela poderia ter herdado certos traços do seu falso pai, daí que ninguém tenha suspeitado de nada. 

Pelo menos Tomás jamais o suspeitou e ela tão-pouco. 

Mas agora esse nuance tinha conseguido desmantelar toda uma vida: a dela. 

Tomás, por seu lado, morreu enganado, ou melhor, viveu sempre a sua verdade que é o que fica: que importa a mentira se não é revelada? 

Tomás foi para a tumba sendo o pai da sua filha, aí não há mais nada a acrescentar. 

Aliás ela agora conhece a autêntica verdade, a que fica e ficará para sempre. 

Vê-se obrigada a enfrentar-se com duas realidades distintas, opostas, incompatíveis. 

E talvez tenha que “photoshopear” uma por uma, as lembranças da sua infância com a cara biológica do seu autêntico pai ou enlouquecerá.
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2 comentários:

Fá menor disse...

Gostei de ler!

:)

xistosa, josé torres disse...

Fa menor

Casos banais que, por o serem, podem tornar-se sufocantes.
Mas a vida será sempre assim.