.
Bar um milhão num turbilhão.
Onze e trinta da noite (ou vinte e três e trinta).
Cinco mesas vazias, uma máquina caça-níqueis ilegal, modificada e dissimulada num qualquer inocente joguito, outra de tabaco, paredes lisas e o balcão custodiado por um barman com olheiras cor licor de amora.
No total, sete clientes; um com um copázio na mão na ilegal máquina de poker e os outros seis ao balcão, bebendo sozinhos, em silêncio.
Sento-me no único tamborete livre, no extremo esquerdo do balcão e peço uma cerveja.
– Fino ou garrafa?
– Garrafa.
Sempre.
Deito um olho ao táxi.
Continua em segunda fila.
Rua calma.
Não há problema.
O empregado serve-me a cerveja e junta um pires (para petiscar) com algo difícil de decifrar.
Parecem bocaditos de carne com molho de tomate.
Ou fragmentos de dedos gordurosos recentemente mutilados.
Comerei por decoro.
Curioso mundo dos petiscos.
Curioso este costume.
Não pedi isto.
Bem-vindo seja.
O paroquiano número cinco pede: “outro caneca, Pedro”.
O número três sai até ao passeio para fumar.
Todos parecem cortados pelo mesmo padrão.
O padrão de um alfaiate com Parkinson.
Cada um no seu mundo.
Cada caneco fazendo as vezes de oráculo.
Dá-me um “Tomatin Single Malte 18 Anos” de apoio e moverei o meu mundo.
Deus fliparia (alucinar-se-ia).
Dante, ainda mais.
Nisto, ao cliente da merda da máquina caça-níqueis, sai-lhe a “sorte grande”.
Tilintam 120€ numa gaveta na parte inferior da máquina.
Olha em redor, desconfiado ou querendo avisar os restantes da sua boa hora.
Não parece ter êxito.
Ninguém despega os olhos dos copos.
Pescoços flácidos: eu mesmo com o meu mecanismo.
De que serve ganhar cento e vinte euros se ninguém viu, para além dele?
Volta a introduzir moedas.
Pede outro whisky com coca cola.
Agora o barman muda de canal com o comando à distância.
Futebol em diferido, televendas, horóscopo, filme a preto e branco, ténis.
Detém-se sobre um documentário acerca do cosmos.
Aparecem estrelas fugazes.
O barman observa a televisão e suspira.
Levanto-me e vou à casa de banho.
Sento-me na retrete, puxo pelo telemóvel e procuro na agenda a Eduarda.
Depois de tanto tempo sem saber dela, envio-lhe uma mensagem:
AMO-TE.
16MAR2011
.



Sem comentários:
Enviar um comentário