O VIDEIRINHO

sábado, fevereiro 18, 2012

FITAR

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Quando levantei os olhos para o espelho retrovisor, os seus olhos estavam lá. 

Cravados nos meus olhos como punhais. 

Desconheço o tempo que tinha passado olhando-me, ou se realmente me olhava a mim ou talvez a um infinito distante, coincidente com os meus olhos, inclusivamente mais além dos meus olhos, lá onde o mundo dá a volta. 

Algumas vezes olhamos sem olhar; são pensamentos que temos em branco, que nos tornam cegos, ausentes. 

Olhares perdidos que ás vezes se cruzam sem querer com outros olhos, que não nos importam, não incomodam. 

Não têm o poder de aniquilar os nossos olhares. 

Neste caso gostei dos seus olhos (ou melhor, a sua forma de olhar-me ainda que sem querer). 

 

Aquele olhar casual ou não, tornava-se acolhedor, assentava-me bem e eu necessito de sentir-me sempre bem, como todos. 

 Assim, não duvidei em tomar medidas, ainda que só fosse para prolongar aquela sensação de bem-estar. 

Sem perdê-la de vista, saquei do porta-luvas de um marcador e dispus-me a desenhar sobre o espelho retrovisor o contorno do reflexo dos seus olhos. 

E as suas pestanas também as desenhei. 

Eram lindas. 

E enquanto desenhava os seus olhos, ela desfigurou-os com o seu sorriso.
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