O VIDEIRINHO

domingo, fevereiro 12, 2012

SILICONE

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A passageira tirou o casaco e de súbito emergiram no meu espelho retrovisor duas enormes mamas (protegidas por um botão prestes a implodir da blusa). 

À simples vista desarmada foi-me impossível discernir se aquelas mamas eram reais ou não. 

Tão-pouco lho perguntei, não por falta de uma vontade indómita, mas por essa lei não escrita do decoro (a mesma que faz da vida um grande mistério).

Para mim era importante saber se aquele fenómeno era fruto de um capricho de deus, ou se seriam simplesmente bunkers de silicone. 

Essa nuance, para que me possam perceber o que tento dizer, condicionava a minha capacidade de assombro. 

A nós homens atraem-nos as mamas talvez por uma rara ligação com a nossa infância. 

E talvez também por isso eu recuse o silicone (nenhum lactante poderia sobreviver sugando uma substância que igualmente serve para vedar portas e janelas). 

 

Além disso, o conceito de beleza natural abate-me. 

Não me seduz apalpar uma densidade que previamente foi aprovada numa assembleia de accionistas, ou que teve que passar certos controlos acima do controlo das minhas caricias. 

Custa-me admirar um tamanho eleito por catálogo, ou uma forma moldada numa sala de operações ao gosto da portadora e ao pulso de um cirurgião. 

E que dizer dos mamilos? 

Com que avidez e desejo se estimula um mamilo se não podemos deixar de evitar pensar que uma vez (pelo menos) foi levantado como uma tampa de iogurte? 

Enfim. 

Milhentas coisas. 

Os famosos implantes PIP

Esse silicone defeituoso que se rompe e espalha-se interiormente. 


Se em lugar de silicone fosse um cúmulo de lembranças concentradas na memória das suas mamas, lembranças com defeito que explodem e inundam o seu corpo, ao menos teria o seu quê de poético. 

Mas estou a falar de um produto industrial fabricado em série, por amor de deus... 

O caso é que a passageira que deu origem a esta história terminou o seu trajecto, pagou-me a viagem e saiu do táxi; fiquei sem saber se aquelas mamas eram reais (naturais). 

Nunca disse que a profissão de taxista fosse perfeita.
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