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Wisława Szymborska ( (* 2 de Julho de 1923 —
† 1 de fevereiro de 2012 ) poeta polaca, prémio Nobel da Literatura
de 1996, faleceu aos 88 anos, em Cracóvia vítima de cancro do pulmão.
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“Faleceu em casa, tranquilamente enquanto dormia”,
explicou à imprensa o seu secretário pessoal, que recordou, ter sido ela uma
fumadora incorrigível, apesar das constantes advertências dos médicos. É a
poetisa mais conhecida da Polónia, mas teve que esperar pela concessão do
Prémio Nobel para que a sua obra fosse conhecida no mundo. Destacou-se pela
poesia cheia de humor e pelo seu hábil jogo de palavras, presente sempre desde
o seu primeiro poema, “Procurando uma palavra”, publicado num diário de Kornik
em 1945.
“Opinião
sobre a pornografia”
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Não há maior
devassidão que o pensar.
Este devaneio
propaga-se como a erva daninha
nos canteiros
reservados para as margaridas.
Para aqueles que
pensam, nada é sagrado.
Insolentemente
chamam as coisas pelo seu nome,
elaboram viciosas
análises e sínteses concupiscentes,
entregam-se à
selvagem e libertina persecução da verdade desnuda,
o manuseio obsceno
de temas delicados,
o acariciar de
opiniões; é disso que eles gostam.
A
plena luz do dia ou na escuridão da noite,
unem-se
em pares, triângulos e círculos.
Não
importa o sexo, nem a idade dos integrantes..
Brilham-lhes
os olhos, ardem-lhes as bochechas.
Um
amigo corrompe outro amigo.
Filhas
degeneradas pervertem o seu pai.
Um
irmão alcovita com a sua irmã menor.
Apetecem-lhes
outros frutos
os
da árvore proibida da ciência,
e
não as rosadas nalgas das revistas coloridas,
nem
a pornografia habitual, no fundo tão simplória.
Divertem-nos
livros sem ilustrações,
com
um único interesse: certas frases
marcadas
com a unha ou com um lápis vermelho.
Que
espanto! Que posturas
e
com que escabrosa simplicidade
se
deixa uma mente fecundar por outra!
Nem
no Kamasutra são conhecidas estas posições.
E
nestes encontros só o chá está quente.
A
gente senta-se, move os lábios.
Cada
qual coloca a sua própria perna, uma sobre a outra.
Assim,
um pé descansa no solo,
e
o outro, balança-se livremente no ar.
Só
de vez em quando alguém se levanta,
Aproxima-se da janela
e
por uma fresta da persiana
espia
a rua.
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