O VIDEIRINHO

domingo, fevereiro 26, 2012

O SAPO

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Ao limpar os tapetes do meu táxi, encontrei uma pastilha esbranquiçada com a aparência de um caramelo, o típico caramelo para a tosse. 

Sugestionado, talvez por aquela descoberta, comecei a tossir sem controlo. 

Assim, o impulso seguinte foi comer o rebuçado. 

Não era de menta ou eucalipto como pensei. 

Tinha um sabor bem mais ácido, a 'modos que' corrosivo, mas conseguiu radicalmente eliminar-me a tosse. 

Continuei com as minhas limpezas enquanto o rebuçado se derretia na boca e nisto, levantando um tapete do chão do táxi, encontrei uma nota manuscrita e assinada mesmo por Henry Miller:

 “Se algum homem se atrevesse alguma vez a expressar tudo o que transporta no coração, a consignar o que é realmente a sua experiência, o que é verdadeiramente a sua verdade, acho que então o mundo se faria em fanicos, que voaria em pedaços e nenhum deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia voltar a juntar os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que intervieram na construção do mundo”. 

Notei que alguém me tocava no ombro. 

Voltei-me. 

Era Cavaco Silva com o uniforme da bomba de gasolina perto de minha casa. 

Na mão levava um saco de plástico quase cheio de água e com um peixe a nadar lá dentro. 

O saco tinha um pequeno furo e saía água, mas ele parece que não se dava conta. 

Estendeu-me o saco ao mesmo tempo que se aproximava de mim para me dar um beijo, mas consegui safar-me e correr para a loja de conveniência da bomba de gasolina. 

Aí encontrei uma máquina de ovos e abracei-me a ela. 

Tinha um tacto suave: surgiu o amor repentino (à primeira vista, ou ao primeiro contacto). 

Como demonstração do meu amor para com a máquina, peguei numa moeda, rodei o manípulo e saiu-me uma bola com um mamilo erecto dentro. 

Como é complexo o sexo, pensei. 

Consegui abrir a bola e ao ver Cavaco Silva a correr (desta vez vestido de Harry Potter), fiz-me pequeno, meti-me na bola e fechei-a por dentro. 

Escondi-me atrás do mamilo e por sorte Cavaco Silva passou ao largo. 

Depois tropeçou e espetou a varinha mágica no... num dos costados. 

Imediatamente se converteu num sapo com cabelo, mas eu não tive nada a ver com isto. 

Juro-o!
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1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Não acredito que o Cavaco tenha dinheiro para andar de táxi. Espero que os chineses instalem em Portugal serviços de riquexó, lá se vão as praças de táxi à falência.