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Conduzo o meu táxi atrás de uma mota.
Sigo de perto essa moto porque nela viaja tudo o que entendo por sensual: uma longa melena loira, um rosto aberto à imaginação (leva capacete), costas côncavas e apenas uns centímetros de carne à intempérie, espontânea pela postura.
Esses poucos centímetros incluem um fio de uma tanga de cor fatal: é a base invertida de um triângulo equilátero cuja máxima tensão o transforma em isósceles.
Sensual, é intuir que aquela tanga desafia todas as leis da trigonometria.
Todos os seus vértices prolongam-se, convertendo-se em linhas e a linha do vértice inferior viola sem querer esse infinito caracol da mesma vida e, transforma-se de novo, noutro triângulo algo maior que o do outro lado do seu corpo, abaixo do umbigo, que também imagino com um piercing.
Não existe equação que o demonstre, mal posso ver uma mínima parte daquele complexo tipo trama, mas sei que é assim e essa geometria imaginária põe-me louco.
Sensual é o triunfo do descuido acima do pudor.
Essa pista extra que me ajuda a tirar do fio, essa nova peça a encaixar no puzzle que pouco a pouco vou formando na minha cabeça.
E cada nova peça (talvez uma tira do sutiã num descuido, ou o rebordo dos seus olhos se levantasse a viseira do capacete, ou uma nova tatuagem num tornozelo) é celebrada em grande estilo, como uma criança que conseguiu o cromo mais difícil do álbum.
Mas a mais complexa sensualidade radica em saber deter-me a tempo, em não querer ver mais do que o necessário, por medo ou decepção.
E se os seus peitos não são tal e qual os imaginei?
E se ao desmontar da moto o seu traseiro perder a tensão dessa postura e deixar de ser tão perfeito?
E se tira o capacete e com isso desaparece essa beleza que imaginei, conjugando o seu cabelo com o seu corpo?
Por isso, quando ela por fim se coloca a meu lado com a moto e sobe a calçada com o fim de prosseguir o seu trajecto, decido não seguir os seus passos.
É melhor acelerar o meu táxi e ficar com essa imagem sensual e nítida que sempre será mais bela que a realidade.
Repito: SEMPRE!
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