O VIDEIRINHO

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

ROSAS E ESPINHOS

 .

 

Afogado pelo desemprego, Eduardo, decidiu dar um alento à sua família e foi vender rosas e chaveiros com luzes, pelos restaurantes e bares de Matosinhos. 

Cada noite, antes de sair para trabalhar, a sua esposa, Ana Luísa, ajudava-o a colocar na cabeça um ridículo diadema com duas enormes estrelas luminosas presas com molas. 

Dava-lhe um beijo, metade amor, metade sorte e assomava orgulhosa à janela até vê-lo partir com as rosas e a réstia de chaveiros, rua abaixo. 

Eduardo sabia que tinha de vender, pelo menos, sete rosas e cinco chaveiros por noite, para cobrir os gastos. 

Para ele era importante sorrir a todo o mundo (particularmente aos bêbados jocosos), ser amável com os porteiros dos bares para o deixarem entrar, não insistir nem incomodar ninguém e, sobretudo, esquivar-se à polícia. 

Tinha por costume oferecer as rosas aos casais e os chaveiros aos bêbados. 

 

A resposta mais comum era ignorarem-no ou dizerem-lhe que não com a cabeça, ou pegarem nos chaveiros para se rirem (dos chaveiros e de Eduardo também) e depois devolviam-nos, ou inclusivamente, por vezes, tentavam roubá-los sem que ele desse conta. 

Mas alguns, a minoria, davam um par de euros por uma rosa (para ficarem bem vistos com a sua parceira) ou por um chaveiro (só para continuarem a brincadeira). 

As vendas de Eduardo (e o escritório que Ana Luísa limpava) apenas dava para sobreviverem. 

E o futuro não pintava nada de risonho: cada vez havia mais concorrência e os bares, com a crise, estavam mais vazios que nunca. 

O excepcional desta história é que, cada noite, as rosas que não conseguia vender, deixava-as na cama para Ana Luísa. 


Quando, bem tarde da noite, chegava a casa, Eduardo rodeava de rosas o corpo adormecido de Ana Luísa, antes de se deitar a seu lado. 

Ela, ao despertar cada manhã, sabia quanto bem ou mal tinha trabalhado o seu marido em função do número de rosas que se encontravam ao seu redor. 

Se ao despertar não havia uma única rosa na cama, alegrava-se pela boa noite de Eduardo. 

No entanto, quando amanhecia com a cama cheia de rosas, sentia-se feliz. 

NOTA: 
Agora levo no tablier do meu táxi uma das suas rosas. 
São mais dois euros para Eduardo, mas uma rosa menos para Ana Luísa.
.

Sem comentários: