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Afogado pelo desemprego, Eduardo, decidiu dar um alento à sua família e foi vender rosas e chaveiros com luzes, pelos restaurantes e bares de Matosinhos.
Cada noite, antes de sair para trabalhar, a sua esposa, Ana Luísa, ajudava-o a colocar na cabeça um ridículo diadema com duas enormes estrelas luminosas presas com molas.
Dava-lhe um beijo, metade amor, metade sorte e assomava orgulhosa à janela até vê-lo partir com as rosas e a réstia de chaveiros, rua abaixo.
Eduardo sabia que tinha de vender, pelo menos, sete rosas e cinco chaveiros por noite, para cobrir os gastos.
Para ele era importante sorrir a todo o mundo (particularmente aos bêbados jocosos), ser amável com os porteiros dos bares para o deixarem entrar, não insistir nem incomodar ninguém e, sobretudo, esquivar-se à polícia.
Tinha por costume oferecer as rosas aos casais e os chaveiros aos bêbados.
A resposta mais comum era ignorarem-no ou dizerem-lhe que não com a cabeça, ou pegarem nos chaveiros para se rirem (dos chaveiros e de Eduardo também) e depois devolviam-nos, ou inclusivamente, por vezes, tentavam roubá-los sem que ele desse conta.
Mas alguns, a minoria, davam um par de euros por uma rosa (para ficarem bem vistos com a sua parceira) ou por um chaveiro (só para continuarem a brincadeira).
As vendas de Eduardo (e o escritório que Ana Luísa limpava) apenas dava para sobreviverem.
E o futuro não pintava nada de risonho: cada vez havia mais concorrência e os bares, com a crise, estavam mais vazios que nunca.
O excepcional desta história é que, cada noite, as rosas que não conseguia vender, deixava-as na cama para Ana Luísa.
Quando, bem tarde da noite, chegava a casa, Eduardo rodeava de rosas o corpo adormecido de Ana Luísa, antes de se deitar a seu lado.
Ela, ao despertar cada manhã, sabia quanto bem ou mal tinha trabalhado o seu marido em função do número de rosas que se encontravam ao seu redor.
Se ao despertar não havia uma única rosa na cama, alegrava-se pela boa noite de Eduardo.
No entanto, quando amanhecia com a cama cheia de rosas, sentia-se feliz.
NOTA:
Agora levo no tablier do meu táxi uma das suas rosas.
São mais dois euros para Eduardo, mas uma rosa menos para Ana Luísa.
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