O VIDEIRINHO

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

IMPARÁVEIS INSUBMISSOS

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Durante os últimos dias li o livro de Gene Sharp, From Dictatorship to Democracy editado pela Albert Einstein Institution (Janeiro de 2008, Boston). 

Este livro, realmente fascinante, constitui um autêntico manual de acção para a revolução pacífica. 

Foi, ao que parece, o livro de cabeceira de muitos dos “protestantes” pacíficos nos países árabes, que utilizaram os conselhos deste sábio, desconhecido para muitos. 

O mérito não é totalmente seu, pois as redes sociais ajudaram a difundir, entre a população civil árabe, os casos de corrupção dos ditadores desses países, postos em evidência por – entre outros – Wikileaks, cujos fios condutores foram postos a nu pela imprensa. 



Esta revolução pacífica deixa-nos, a todos os que não sofremos na própria carne, fascinados e intranquilos. 

Apesar da reacção dos ditadores (genocidas, como no caso de Gadafi ou Khadafi), os “protestantes” aguentam as provocações e os assassinatos convencidos de que o fim que perseguem é mais valioso que a sua própria vida. 

Fascina-me por variadas razões. 

A primeira, pelo inesperado do movimento e da valentia dos seus intérpretes. 

Enquanto todos os cristãos ocidentais intentam avistar a luz ao fundo do túnel (que eles mesmos escavaram), eles acendem focos de esperança por uma vida melhor, mais digna e livre. 


Mas também me fascina, pela importância do facto. 

Junto com a queda do muro de Berlim, este é possivelmente o acontecimento mais relevante da história recente. 

Mas ao mesmo tempo intranquiliza-me. 

Como é possível que não haja lideres claros à frente destas revoluções? 

A história ensinou-nos que a derrocada de ditaduras pode dar lugar, ás vezes, a ditaduras piores se a insurgência é aproveitada por pérfidos. 

Mas não menos preocupante parece-me a nossa atitude, os ocidentais, democratas de toda a vida, que acompanhamos as notícias, fazemos declarações e condenações estabelecidas. 

E, enquanto isso,  repassamos urgentemente os arquivos, temerosos de encontrar informações comprometedoras das relações que mantivemos com estes sátrapas.
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Claro, quanto a Berlim (1989) não havia petróleo em jogo, nem gás, nem vendas massivas de armamento a uma zona militarizada. 

Agora, em lugar de ajudar, preocupamo-nos com a pressão do gasoduto, do estado do oleoduto, da carteira de encomendas de pedidos de armas, do possível fluxo migratório até aos nossos países, da cara de Israel, do saldo líquido comercial… 

E esses povos? 

Os povos árabes isentam-se a si mesmos, procuram a liberdade, a dignidade e um futuro melhor escolhido por si mesmos e liderados pelos seus. 

Enquanto isso, nós os ocidentais, democratas de longa vida, temos lucros na Bolsa de valores e não por acaso. 

“A liberdade nem sempre é livre”.
06MAR2011
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