O VIDEIRINHO

quarta-feira, maio 02, 2012

AMÁSIOS

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As malas já estavam desfeitas, as camisas e calças dependuram-se dos cabides, os sapatos formam no armário, alinhados por ordem de cores: estamos instalados no motel Ibis. 

No lavatório do quarto de banho, as nossas escovas de dentes bailam cruzadas o seu tango apaixonado de cristal, presenteando-nos essa sensação de lar tão necessária. 

O quarto é diáfano, luminoso; a alcatifa de cor clara está limpa e convida a andar descalço. 

Aqui estaremos à vontade, tenho a certeza. 

A recepcionista foi muito amável (demasiado mesmo, segundo Amélia) e apenas se surpreendeu quando rejeitámos a sua ajuda com a bagagem. 

Insistiu só o suficiente em que não era necessário pagar 15 dias adiantado e aceitou a gorjeta com um sorriso, anotando no livro a nossa reserva, “Senhor e senhora Torres”. 

Todavia, e creio que com a Amélia se passa o mesmo, nunca me acostumei a usar um novo nome em cada lugar. 


Mas os dois sabemos que é necessário, que é um dos pequenos detalhes imprescindíveis para continuar a viver esta história de amor. 

Ainda que pareça uma loucura, fugimos, escapulímo-nos juntos, abandonando para sempre as nossas vidas anteriores. 

 E ainda que seja difícil de acreditar, esta vida nómada de motel em motel, sem qualquer destino mais do que localizar fugazes cantos para o nosso idílio e semear as peças que desmontam o ocorrido, terminou apaixonando-nos. 


Felizes, dirigímo-nos para estrear a piscina. 

Amélia levava um biquini preto que comprámos numa área de serviço e o pessoal jovem, com os olhos, devoraram-na como os olhos. 


Não sou ciumento, simplesmente chateia-me contemplar nos outros o efeito que o seu corpo e a sua beleza causam em mim, mesmo assim, pedi-lhe que se mudasse e ela acedeu com uma careta 'coquete' e qualificando os sorrisos da recepcionista como algo mais que de cortesia. 

Esta mulherzita minha!!! 

Isto acontece-me sempre que a vejo, algo me trespassa o coração e esqueço o que acontece ao redor. 

Lurdes, a minha mulher, percebeu-o imediatamente nos jardins do centro durante o nosso primeiro encontro. 

Fernando, o marido de Amélia, também. 

Não se pode, como dizem, tapar o sol com uma peneira, não se pode deter um amor como o nosso. 

Fernando e Amélia trataram de opor-se, claro, tal qual os nossos filhos e netos, os médicos e enfermeiros e todos os demais ocupantes do centro de repouso. 

Foi inútil. 

 

Desde a guerra de Angola que não tinha utilizado a Walther P38 que guardava religiosamente junto duma qualquer condecoração que me deram. 

Pensei que encravaria depois de tantos anos, mas o gatilho deslizou com suavidade e os dois estampidos ficaram afogados com as almofadas, sem despertar ninguém. 

Levámos os seus corpos em macas até ás câmaras frigoríficas da cozinha e trociscámo-los com a serra eléctrica. 

Agora vamos deixando uma parte das nossas vidas em cada etapa.; na última cidade abandonámos a cabeça do pobre Fernando num contentor de lixo. 

Amélia disse-me que no mini golfe do Ibis a terra é macia e ninguém suspeitará que as pernas de Lurdes descansam debaixo do buraco 13. 
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