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As
malas já estavam desfeitas, as camisas e calças dependuram-se dos
cabides, os sapatos formam no armário, alinhados por ordem de cores:
estamos instalados no motel Ibis.
No lavatório do quarto de banho, as nossas escovas de dentes bailam cruzadas o seu tango
apaixonado de cristal, presenteando-nos essa sensação de lar tão
necessária.
O quarto é diáfano, luminoso; a alcatifa de cor clara
está limpa e convida a andar descalço.
Aqui estaremos à vontade,
tenho a certeza.
A recepcionista foi muito amável (demasiado mesmo,
segundo Amélia) e apenas se surpreendeu quando rejeitámos a sua
ajuda com a bagagem.
Insistiu só o suficiente em que não era
necessário pagar 15 dias adiantado e aceitou a gorjeta com um
sorriso, anotando no livro a nossa reserva, “Senhor e senhora
Torres”.
Todavia, e creio que com a Amélia se passa o mesmo,
nunca me acostumei a usar um novo nome em cada lugar.
Mas os dois
sabemos que é necessário, que é um dos pequenos detalhes
imprescindíveis para continuar a viver esta história de amor.
Ainda
que pareça uma loucura, fugimos, escapulímo-nos juntos, abandonando
para sempre as nossas vidas anteriores.
E ainda que seja difícil de
acreditar, esta vida nómada de motel em motel, sem qualquer destino
mais do que localizar fugazes cantos para o nosso idílio e
semear as peças que desmontam o ocorrido, terminou apaixonando-nos.
Estreámo-nos de pé, de encontro ao roupeiro do motel Ibis, estreámos a cama, estreámos o chuveiro e até a alcatifa, em seis ou sete assaltos de paixão que terminaram num empate.
Felizes, dirigímo-nos
para estrear a piscina.
Amélia levava um biquini preto que
comprámos numa área de serviço e o pessoal jovem, com os olhos,
devoraram-na como os olhos.
Não sou ciumento, simplesmente
chateia-me contemplar nos outros o efeito que o seu corpo e a sua beleza causam em
mim, mesmo assim, pedi-lhe que se mudasse e ela acedeu com uma
careta 'coquete' e qualificando os sorrisos da recepcionista como
algo mais que de cortesia.
Esta mulherzita minha!!!
Isto acontece-me
sempre que a vejo, algo me trespassa o coração e esqueço o que
acontece ao redor.
Lurdes, a minha mulher, percebeu-o imediatamente
nos jardins do centro durante o nosso primeiro encontro.
Fernando, o
marido de Amélia, também.
Não se pode, como dizem, tapar o sol com
uma peneira, não se pode deter um amor como o nosso.
Fernando e
Amélia trataram de opor-se, claro, tal qual os nossos filhos e
netos, os médicos e enfermeiros e todos os demais ocupantes do
centro de repouso.
Foi inútil.
Desde a guerra de Angola que não
tinha utilizado a Walther P38 que guardava religiosamente junto duma
qualquer condecoração que me deram.
Pensei que encravaria depois de
tantos anos, mas o gatilho deslizou com suavidade e os dois
estampidos ficaram afogados com as almofadas, sem despertar ninguém.
Levámos os seus corpos em macas até ás câmaras frigoríficas da
cozinha e trociscámo-los com a serra eléctrica.
Agora vamos
deixando uma parte das nossas vidas em cada etapa.; na última cidade
abandonámos a cabeça do pobre Fernando num contentor de lixo.
Amélia disse-me que no mini golfe do Ibis a terra é macia e ninguém
suspeitará que as pernas de Lurdes descansam debaixo do buraco 13.
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