O VIDEIRINHO

quarta-feira, maio 16, 2012

CONGELADOS

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A mulher parecia uma gralha, não parava de falar para mim, que se ele…, que se o calor, que se a nova digressão de Bruce Spingsteen, mas eu não podia evitar olhar para aquela saca, uma saca isotérmica que agora repousava a seus pés sobre o tapete do carro, ao meu lado, no assento do morto do meu táxi. 

Enquanto ela tagarelava eu fazia os meus cálculos: a mulher tinha saído da loja de congelados e apanhado o meu táxi ás 18:28 (viu-me imediatamente que saiu do estabelecimento), pelo que decorreram dois ou três minutos com os produtos fora do congelador (o que poderia ter acontecido entre sacá-los do frio, passar pela caixa, pagar e metê-los na saca isotérmica). 

O trajecto era curto, mas até agora já tínhamos apanhado três semáforos no vermelho e dois carros manobrando para estacionar, azar, assim tinham decorrido uns sete ou oito minutos desde que a mulher sacou a mercadoria do sua ‘habitat’ até este preciso momento. 

 

Quanto tardariam os produtos a descongelar apesar da saca isotérmica? (não fazia a mínima ideia. 
Seria como interrogar-me: quanto tempo dura vivo um peixe fora de água?)

De qualquer maneira faltam-me alguns dados. 

Desconhecia que tipo de produtos guardava na saca. 

Não é o mesmo uma pescada congelada, que gelados de gelo. 

Deve tratar-se de sorvetes, sem dúvida demorariam muito menos em descongelar-se, e neste caso, qual corrente do frio qual carapuça: um gelado descongelado é como um peixe morto. 

E eu não queria matar nada ou ser o cúmplice forçado de algum assassinato. 

Não, no meu táxi. 

Então ocorreu-me uma ideia luminosa (como é meu apanágio). 

Com a intenção de aumentar uns graus, accionei o ar condicionado no máximo, à menor temperatura possível e dirigido para o saco. 


A mulher continuou a falar-me como se nada se tivesse passado, mas entretanto dei conta que tinha umas sandálias calçadas e a corrente de ar frio nos seus pés quase desnudos deve ter percorrido todo o seu corpo, pois instalou-se nos seus mamilos que emergiram como bóias na maré alta (do outro lado da sua t-shirt branca de alças, sem sutiã). 

Agora não só continuava angustiado, vítima de uma angústia crescente e proporcional ao estado intrínseco da saca isotérmica, mas também, por aquela imagem dos seus mamilos erectos, que além do mais, me excitou. 

Estranha mescla de sensações, sem dúvida. 

E digo eu que será por culpa de uma associação inconsciente de ideias, mas desde este trajecto, cada vez que vejo derreter-se algo, não posso evitar sentir uma certa excitação sexual. 

E também quando vejo um peixe morto. 
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