O VIDEIRINHO

terça-feira, maio 01, 2012

IRRADIAÇÃO e CAPTAÇÃO




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Só me fixei naquele detalhe já o trajecto ia bastante avançado. 

Neste caso, aquela passageira do meu táxi, não sei se por descuido ou deliberadamente, levava espatada no pescoço, a escassos centímetros da sua orelha esquerda, uma agulha de acupunctura. 

Pode muito bem acontecer que o seu médico acupunctor se tenha esquecido de a retirar ou, talvez a tenha deixado cravada na sua pele como parte do processo curativo. 

Por prudência não disse nada, (também que dizer nestes casos?: “Você sabe que tem uma agulha espetada no seu pescoço?"), mas não pude evitar que aquela imagem me mantivesse por longo momento pendente do espelho. 

Tenso e pensativo. 

Num semáforo peguei no telemóvel para colocar no Twitter uma anedota que me ocorreu, mas nisto vejo no ecrã um aviso com a seguinte solicitação de contacto: 

 

Verónica Lopes deseja contactar contigo via Bluetooth. ACEITAR/REJEITAR”. 

Por curiosidade aceitei (e porque no fundo me sinto só e gosto de desafios).

Nesse instante apareceu-me uma mensagem da tal Verónica Lopes: 
Baixe um pouco a temperatura, por Deus! Estou a assar...” 

Olhei a passageira. 

Estava no seu mundo, observando alheada a rua. 

Baixei um par de graus a temperatura e nisto a passageira sorriu, ainda que sem sequer olhar para mim, nem disse nada. 

Depois chegou-me outra mensagem: 
Gosto muito dessa canção. 
Pena é que o volume esteja tão baixo”. 

No rádio soava “Love will tear us apart” de Joy Division. 

Aumentei o volume e então ela olhou-me surpreendida, arqueou as sobrancelhas e voltou a sorrir-me 


Aí soube que através daquela antena, digo, agulha cravada no seu pescoço podia aceder com o meu telemóvel aos seus pensamentos sem que ela o soubesse. 

Mas ainda desconhecia se aquele invento era reciproco. 

Poderia meter-me na sua cabeça? 

Para comprová-lo pensei em enviar uma mensagem a Verónica Lopes através do telefone. 

Escrevi: 
Fecha os olhos”. 

E ela fechou os olhos. 

Uau!, pensei. 

Humedece os lábios, languidamente, com a língua”, voltei a escrever. 

E ela assim o fez. 

Aproxima-te do taxista e beija-o na boca”. 

Verónica colou-se entre os assentos dianteiros e com os olhos cerrados juntou os seus lábios com os meus. 

Enquanto me beijava intentei teclar o meu próximo desejo, mas ao mover-me desprendeu-se a agulha do seu pescoço. 

 
 
Nisto abriu de súbito os olhos e, ao ver-se tão pertinho de mim, afastou-se como um raio e deu-me uma sonora bofetada. 

Então saiu do táxi batendo a porta. 

Pelo menos tenho a sua agulha em meu poder. 

Cravei-a na mesma zona do pescoço que ela e tentei pôr-me em contacto comigo mesmo via Bluetooth para interagir comigo mesmo e obrigar-me a levar melhor vida através do telemóvel, mas não funciona. 

Agora estou num bar. 

Confuso e borracho como todas as noites.
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