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“Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre as minhas pálpebras.
Se pudesse, dizia-lhe que se vá; mas tenho uma mulher atravessada na garganta” (Eduardo Galeano)
Penso em todas essas mulheres perdidas, nas mudanças de rumo.
O sorriso perfeito de Ana.
Os caracóis de Helena.
O umbigo de Marta.
Se não tivesse cortado com Ana, jamais teria conhecido Helena.
Nem a Marta.
Nem sequer o homem que agora sou.
As minhas manias.
Os pijamas de Helena.
As ancas de Marta.
O arfar de Ana.
Mas a Marta é a soma de Helena e da Ana.
A partir do segundo amor todos são vícios, comparações, colagens.
O meu ideal é o rosto de Ana, com os olhos de Helena, com as mamas de Marta, com a inocência de Ana, com os orgasmos de Helena, com o sentido de humor de Marta.
Moldei-me a elas e elas, suponho, também se moldaram a mim.
Fui eu mesmo com as três, mas um diferente para com cada uma.
O amor é solúvel, polimórfico.
Ninguém teme perder a sua própria personalidade: comparte-a, oferece-a.
Disfarças-te de esponja.
No entanto, há algo no meu interior que não varia: tarde ou cedo acabo queimando esse amor com a chispa do seguinte.
Não posso evitar querer viver outras vidas, novas Beatrizes, Rebecas, Paulas, Lauras ou estéreis Esteres.
Não posso evitar crer que ainda não me conheço porque ainda me restam mulheres, matizes, matrizes, ventres por conhecer.
Agora não tenho a Ana, nem a Helena, nem a Marta.
As três serão tão felizes como o fui com elas, com as três.
Uma felicidade diferente, não há duas iguais.
Agora sou taxista.
Dedico-me a mudar de rumo segundo me indiquem, ou que eu decida, tal e qual fiz com elas e elas comigo.
Não me arrependo de nada.
Tão-pouco das ruas que transito.
Nota:
A quem é que quis mais?
Não tenho a mínima dúvida: A mim!
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