.
Despertaram-me uns impactos.
Vinham das traseiras, dum campo de padel recém acabado.
Eram toques de raqueta: POP... POP... POP... POP...
Sempre iguais, com idêntica frequência: POP... POP...
Os adversários não pareciam render-se nem falhar nunca: POP… POP…
Batiam na bola uma e outra vez, com a força exacta: POP… POP…
Exactamente 1,5 segundos entre cada impacto: POP... (1,5 segundos). POP... (1,5 segundos). POP...
Fechei os olhos.
Os impactos lá continuavam.
Consegui adormecer mas não totalmente.
Dormitava, como se costuma dizer.
O caso é que aquela unidade de tempo, (o intervalo compreendido entre um golpe de bola e o seguinte), foi assimilado pelo meu subconsciente a tal ponto que, os meus segundos biológicos acabaram por se converter em 1,5 segundos de relógio.
A partir de então a minha vida começou a fluir mais vagarosamente.
Cada minuto real converteu-se, exactamente em minuto e meio para mim.
E os meus dias passaram a ter 36 horas.
Procurando na internet possíveis respostas para o meu problema, dei com uma tal Amélia, que por coincidência também vivia no Porto, a quem tinha sucedido o mesmo que a mim, mas inversamente.
No seu caso, tinha ficado adormecida escutando o gotejar de uma torneira avariada na cozinha, a um intervalo de 3/4 de segundo entre cada gota.
Quando acordou daquele sonho, tudo nela tinha começado a ir mais depressa, encurtando as suas horas; reduzindo os seus dias.
Propus a Amélia conhecermo-nos.
Antes mesmo de lhe enviar a minha proposta, ela acedeu.
Os dois tínhamos a mesma curiosidade de conhecer, presencialmente, o momento errado do outro.
Nessa mesma tarde, ás seis e trinta do vosso relógio, passei para a ir buscar no meu táxi.
Amélia sentou-se ao meu lado e, de repente, comecei a sentir palpitações (taquicardia).
Ela no entanto, segundo me disse, começou a notar uma certa queda nas suas pulsações (bradicardia).
E não me perguntes como, nem porque ocorreu, mas após aquele primeiro “amor à primeira vista” ou paixão, numa fracção de segundo impossível de definir, beijámo-nos.
E aquele foi o beijo mais perfeito das nossas vidas.
.



2 comentários:
Que bonito!*
tétisq
Acertámos o "relógio...
Não sei se o biológico.
Enviar um comentário