O VIDEIRINHO

quinta-feira, maio 24, 2012

POP... POP... POP...

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Despertaram-me uns impactos. 

Vinham das traseiras, dum campo de padel recém acabado. 

Eram toques de raqueta: POP... POP... POP... POP... 

Sempre iguais, com idêntica frequência: POP... POP... 

Os adversários não pareciam render-se nem falhar nunca: POP… POP… 

Batiam na bola uma e outra vez, com a força exacta: POP… POP… 

Exactamente 1,5 segundos entre cada impacto: POP... (1,5 segundos). POP... (1,5 segundos). POP... 

Fechei os olhos. 

Os impactos lá continuavam. 

Consegui adormecer mas não totalmente. 

Dormitava, como se costuma dizer. 

O caso é que aquela unidade de tempo, (o intervalo compreendido entre um golpe de bola e o seguinte), foi assimilado pelo meu subconsciente a tal ponto que, os meus segundos biológicos acabaram por se converter em 1,5 segundos de relógio. 

 

A partir de então a minha vida começou a fluir mais vagarosamente. 

Cada minuto real converteu-se, exactamente em minuto e meio para mim. 

E os meus dias passaram a ter 36 horas. 

Procurando na internet possíveis respostas para o meu problema, dei com uma tal Amélia, que por coincidência também vivia no Porto, a quem tinha sucedido o mesmo que a mim, mas inversamente. 

No seu caso, tinha ficado adormecida escutando o gotejar de uma torneira avariada na cozinha, a um intervalo de 3/4 de segundo entre cada gota. 

Quando acordou daquele sonho, tudo nela tinha começado a ir mais depressa, encurtando as suas horas; reduzindo os seus dias. 

Propus a Amélia conhecermo-nos. 


Antes mesmo de lhe enviar a minha proposta, ela acedeu. 

Os dois tínhamos a mesma curiosidade de conhecer, presencialmente, o momento errado do outro. 

Nessa mesma tarde, ás seis e trinta do vosso relógio, passei para a ir buscar no meu táxi. 

Amélia sentou-se ao meu lado e, de repente, comecei a sentir palpitações (taquicardia). 

Ela no entanto, segundo me disse, começou a notar uma certa queda nas suas pulsações (bradicardia). 

E não me perguntes como, nem porque ocorreu, mas após aquele primeiro “amor à primeira vista” ou paixão, numa fracção de segundo impossível de definir, beijámo-nos. 

E aquele foi o beijo mais perfeito das nossas vidas.
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2 comentários:

Tétisq disse...

Que bonito!*

xistosa, josé torres disse...

tétisq

Acertámos o "relógio...
Não sei se o biológico.