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O passageiro que agora viaja no meu táxi ainda não sabe que hoje levo vestido um conjunto de roupa interior feminino.
Em concreto umas calcinhas de renda vermelha e um sutiã, também de renda, mas sem chumaços, por debaixo da camisa e da camisola e assim não se nota.
Comprei-o outro dia no Corte Inglês (pedi à empregada como uma oferta de aniversário sexy para a minha namorada; resta-me acrescentar que não tenho namorada, nem nada para celebrar).
Na realidade estou a escrever um relato protagonizado por uma mulher, na primeira pessoa e queria meter-me na sua pele sem levantar suspeitas.
A ideia era mimetizar-me com a personagem, embutido na sua roupa interior, enquanto conduzo pelas ruas do Porto.
Ser outro por dentro sem que se note por fora (assim a modos que, como o anúncio do iogurte com 'bifidus', mas ao contrário).
Talvez, se o cliente observasse, num descuido, a alça do meu sutiã, ou o elástico das calcinhas por fora das calças, mudaria por completo o seu conceito a meu respeito.
Ou talvez ele também tenha por costume usar roupa interior feminina (e por que não?) e agora mesmo a tenha vestido sem que eu o saiba.
Ou talvez todos nós a usemos (e elas a nossa), combinando em segredo levar outra vida oculta debaixo da roupa.
Desde o vereador de urbanismo até a matrona.
Ou o juiz, ou a sua esposa.
Oxalá.
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