O VIDEIRINHO

quinta-feira, maio 31, 2012

TROCAS… À ANTIGA


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Era um Che Guevara actualizado, sem boina, mas o mesmo olhar rude, longínquo, as sobrancelhas não tanto cerradas, dois olhos de olhar vago, queixo quadrado. 

A sua mala e ele tomaram o meu táxi na estação de autocarros da Praça da Batalha. 

Já sentado, sacou de um papelito enrugado com o seu destino: a casa do seu filho Pedro. 

– O meu Pedro prosperou, mas eu sou mais do povo. 

Os congestionamentos e os fumos são coisa do demónio, com perdão, disse-me já com uns minutos de viagem. 

O caso é que chegado ao seu destino, com o taxímetro marcando 11,85€, deitou a mão à sua carteira e só encontrou 10€. 

– Ai, minha mãe. 
E agora o que fazemos? 
Se esperar um momento chamo o meu filho Pedro que vive mesmo ali, ele pagar-lhe-à.  


– Não se preocupe, bom homem. 
Dê-me esses 10€ e assunto encerrado, disse-lhe. 

– De jeito nenhum. 
Se o aparelho marca 11,85€, pois que seja assim. 

– Esqueça-o. 
De verdade. 

– Bem, ao menos deixe-me dar-lhe algo em troca… 

Dito isto este homem abriu a sua mala, sacou uma réstia de morcelas envoltas em papel pardo e, com uma pequena navalha que transportava num bolso, cortou um par de peças e estendeu-mo. 

– Tome, simpático. 
Um par de morcelas de sangue da Guarda. 
As melhores do mundo. 

– Não é necessár… 

- Insisto! 
Vai comê-las à minha saúde. 
Desfazem-se na boca. 

Aceitei a sua oferta e parti…


Associei aquele seu nobre gesto aos tempos das trocas, antes do sacana do dinheiro, quando cada qual contribuía com o que tinha por troca do que precisasse do outro. 

Num difícil exercício de introspecção comecei a imaginar como seria aplicá-lo aos nossos tempos. 

Transportar-te pelas ruas. 

Tal, por troca de um bidão de gasolina, ou por dois quilos de pêras do teu peral. 

Ou por um abraço sentido em momentos de extrema necessidade, ou eu ajudo o teu filho com as matemáticas e tu arranjas-me a torneira que pinga. 


Se assim sucedesse ver-nos-íamos obrigados a saber fazer algo, a procurar a nossa própria finalidade: para que sirvo?, o que sou bom a fazer? sou habilidoso com os trabalhos manuais ou partilho o esforço intelectual ou a sublimação artística? 

Cada um, em suma, sentir-se-ia verdadeiramente realizado, inserido nas engrenagens deste mundo. 

E tu dir-me-ás: 
Isto não poderia funcionar numa sociedade como a nossa. 

E eu dir-te-ei: 
Acaso a nossa sociedade funciona?
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