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Acontece que qualquer usuário do meu táxi fica tenso se o olho insistentemente através do retrovisor.
Retesam as suas costas, retesam os músculos da cara: as sobrancelhas, o queixo, as comissuras; inclusivamente pigarreiam ou tossicam.
Sentem-se desconfortáveis.
No entanto, quando não se crêem observados, quando eu me comporto como se não existissem (atento à condução ou simulando isso mesmo, ainda que me fixe neles, com dissimulação), tendem a relaxar-se, a confiar nos músculos da face e progressivamente sentirem-se livres, quase ao ponto de crerem estar sozinhos no táxi, como se o motorista faça parte do mobiliário.
Algo similar sucede quando escrevemos pensamentos, sensações.
Não é o mesmo escrever para si mesmo, que o fazer pressupondo que essas precisas palavras serão lidas.
O texto predestinado a ser queimado ou armazenado a sete chaves, escrito só para mim mesmo, conserva uma frescura inigualável.
Carece de escrúpulos ou preconceitos, de mentiras.
É e será sempre um texto livre, autêntico, sem vícios: nunca foi pensado para agradar a alguém, nem para surpreender alguém, nem para ser compreendido por alguém, além de si, do desabafo.
É um texto escrito em liberdade.
Então, talvez a liberdade, já seja liberdade de movimentos ou liberdade de pensamento, se encontre precisamente nisso: na falta de olhares indiscretos, na mais estrita privacidade.
Então, talvez, sejamos mais livres quanto mais longe criamos outros julgamentos.
Precisamente por isso, talvez, quanto mais sozinho, mais livre.
Pensem nisto.
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2 comentários:
"A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo."
Fernando Pessoa
tétisq
Discordo completamente.
Se vivesse só, quem me fazia a comida, me aquecia na cama, me ajudava no acto sexual e noutras coisas mais.
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