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Ontem viajou no meu táxi uma “famosa”.
Assim, tal qual.
Sem substantivo.
Sem pôr nem tirar.
Nem “escritora famosa”, nem “actriz famosa”, nem uma “famosa neurocirurgiã”.
Só “famosa”, somente.
O seu rosto era-me familiar porque tinha aparecido milhentas vezes na televisão, em todos os canais, era impossível evitá-la; não me recordo fazendo o quê, talvez contando a sua vida íntima, ou a vida íntima de outros, enfim, nestes ou nentes.
Creio que há uns anos se casou com um tipo famoso e, primeiro vendeu o seu matrimónio e imediatamente vendeu o seu divórcio, porque há gente que compra estas coisas para que outra gente, muita gente, sinta inveja.
Uma inveja que tão-pouco entendo (o que há digno de menção?, casar-se?, divorciar-se?).
Enfim, o caso é que a mulher chamou a minha atenção não tanto pela sua condição de “famosa”, o que não me impressiona patavina, mas sim pelos seus gestos: actuava como consciente de ser o foco de atenção de todos os olhares ainda que ninguém a estivesse a olhar.
E esse durissimo papel já lhe tinha moldado o rosto até ao ponto de endurecê-lo (olhos blindados, cara complacente, sobrancelhas arqueadas acima do limite entre o bem e o mal).
Desculpem a foto mas pensei que tinha comprado e Lili Caneças e saiu-me esta 'porcaria'!
Através do espelho senti que não era ela quem viajava no assento traseiro do meu táxi, mas sim uma personagem que ela mesma tinha criado.
De tanto actuar, de tanto perpectuar-se ante os focos (nos estúdios, nos restaurantes, nos táxis, na rua, ou nas compras), talvez se tivesse esquecido de si mesma, talvez não recordasse quem era ou como actuava na sua vida anónima, sem olhos que a seguissem e perscrutassem os seus passos.
Poderia dizer-se que tinha apagado todos os indícios de intimidade.
Como quem vive dentro de um espelho.
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